O conceito de "flânerie"

Feb 20, 2025By Pedro Amaral
Pedro Amaral

O termo flânerie surge inicialmente em França, mais propriamente em Paris, como um fenómeno literário criado pelo poeta Charles Baudelaire em meados do século XIX. No seio da Revolução Industrial cria-se um sentimento de insatisfação gerado pela modernidade mas, que ao mesmo tempo se transforma numa fonte de inspiração adquirida pela deambulação na cidade, percorrendo as ruas calmamente e absorvendo cada detalhe deste mundo em transformação. O flâneur deixa-se assim envolver na cidade, percorrendo caminhos erráticos, tornando-se um connoisseur da rua, procura experienciar o urbano com uma atitude quase voyeurística de observar os citadinos nas suas tarefas banais mas mantendo-se sempre excluído, não se deixando inserir nesta nova modernidade. Ele deseja olhar o mundo de forma diferente, apreender tudo o que observa na cidade labiríntica, apaixonar-se pelo instantâneo, pelo sentimento de vaguear através da multidão sem no entanto fazer parte dela.

A cidade passa assim a ser um refúgio, um lugar onde o flaneur pode ser ele próprio, experienciar através de perambulações, tornar-se um verdadeiro leitor da urbano, um investigador desse “botânico asfalto” (Walter Benjamin). Tudo isto feito de modo inconsciente, através de um olhar distraído, de uma visão momentânea, de uma necessidade de continuar a deambular.

O "flaneur" não tem um caminho certo a percorrer, é como se o seu trajecto fosse decidido por uma hipotética tartaruga, que o conduz vagarosamente por caminhos desconhecidos, um escape ao ritmo imposto pela cidade.